O tratamento da doença valvular através de cateter: um rumo a definir?
Simpósio Luso Francês - Tratamento da doença valvular através de cateter: um rumo a definir? 11 de Abril - 11.30-13.00h- Anfiteatro Jaime Celestino da Costa
 
As relações entre as sociedades Francesa e Portuguesa de Cardiologia sempre foram excelentes e têm sido, ao longo dos anos, marcadas por um permanente e frutuoso intercâmbio científico. A título de exemplo, já este ano, a nossa sociedade teve uma participação activa nas «Jornadas Europeias» da Sociedade Francesa de Cardiologia, num simpósio conjunto sobre doença valvular assintomática.
O tema do simpósio luso-francês do XXXI Congresso Português de Cardiologia, «O tratamento da doença valvular através de cateter», é de actualidade, pois, pode vir a ter implicações no tratamento de doentes com estenose aórtica ou insuficiência mitral e é um dos hot topics da Cardiologia actual.
Sabemos que a prevalência da estenose aórtica por calcificação degenerativa aumenta com a idade, sendo de cerca de 4% na população de mais de 75 anos. Por outro lado, a idade média da população dos países ocidentais tem vindo a crescer em média de quatro meses por ano. Em Portugal, a esperança média de vida aos 65 anos é de 18,13 anos para ambos os sexos e a população com 80 e mais anos aumentou 35% entre 1990 e 2006.
A implantação de válvula aórtica através de cateter para tratamento da estenose aórtica (TAVI) foi introduzida por Alain Cribier em 2002. Não restam dúvidas quanto ao facto de haver doentes de alto risco cirúrgico, com estenose aórtica grave, que não são propostos para substituição valvular convencional. Estima-se que cerca de um terço dos doentes com estenose aórtica grave sintomática não é sequer visto por um cirurgião cardíaco para discussão de uma eventual substituição valvular aórtica. Os motivos são diversos, mas o desconhecimento, pelos clínicos e pelos doentes, dos resultados da cirurgia do idoso, a deficiente interpretação dos factores de risco e o desconhecimento das recomendações europeias ou americanas são os principais.
Na realidade, muitos destes doentes são, de facto, operáveis, com bons resultados, sendo que a substituição valvular aórtica coloca o doente praticamente na curva de sobrevivência de uma população normal. O que é importante realçar é a necessidade de apresentar todos os doentes com estenose aórtica grave a uma equipa multidisciplinar, composta por cirurgiões, cardiologistas, anestesistas e especialistas de Geriatria, que decidirá em conjunto qual a melhor estratégia terapêutica: cirurgia de substituição valvular aórtica, implantação de válvula aórtica através de cateter ou tratamento médico paliativo.
Quatro temas serão apresentados neste simpósio luso-francês sobre terapêutica da doença valvular através de cateter: dois por membros da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e dois por convidados da Sociedade Francesa de Cardiologia.
O Dr. Vasco Gama Ribeiro, do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia, apresentará a sua experiência, nomeadamente, a técnica de implantação e a selecção dos doentes para implantação de válvula aórtica por via femoral ou subclávia.
A Dr.ª Hélène Eltchaninof, da equipa de Alain Cribier, em Rouen, apresentará o FRench Aortic National Corevalve and Edwards Registry e mostrará os resultados precoces de uma série de 244 doentes, em 16 centros franceses, a quem foi implantado uma das duas válvulas percutâneas actualmente comercializadas.
Outra valvulopatia que poderá vir a proporcionar-se, em casos seleccionados e com a devida experiência, a um tratamento por via percutânea é a insuficiência mitral degenerativa. O ensaio aleatorizado EVEREST, apresentado há um mês no American Congress of Cardiology, mostrou que, em doentes seleccionados com insuficiência mitral degenerativa, a taxa de eventos adversos da colocação percutânea de um clipe reaproximando os folhetos da válvula mitral era inferior à da cirurgia de reparação valvular, ao preço de uma menor redução do grau de insuficiência mitral.
O Dr. Dominique Himbert, cardiologista da equipa de Alec Vahanian, em Paris, apresentará os resultados do clipe mitral e de outras técnicas percutâneas de tratamento da insuficiência mitral, como a anuloplastia mitral através do seio coronário. A técnica percutânea, aplicável a doentes com contra-indicações operatórias, é exequível, mas os resultados devem ser avaliados e comparados aos da cirurgia e tratamento médico.
Por fim, tentaremos traçar o que será, na nossa opinião, o futuro próximo do tratamento através de cateter da doença valvular, realçando algumas semelhanças e diferenças com outras terapêuticas inovadoras e o quadro global no qual diferentes cenários poderão concretizar-se.

Prof. Miguel Sousa Uva
Membro da comissão organizadora. Cirurgião cardíaco do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa


 
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