| |  | «As doenças cardiovasculares são a principal causa de mortalidade no mundo.» As palavras são da responsabilidade do Dr. Carlos Aguiar, secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) e coordenador do workshop subordinado ao tema «VIH e doença cardiovascular: convergência de saberes», que decorre, hoje de manhã, no âmbito do XXXI Congresso Português de Cardiologia. Do ponto de vista do especialista, as doenças cardiovasculares são devidas sobretudo à aterosclerose, um fenómeno sistémico que tem início numa fase precoce da vida e progride silenciosamente durante anos e que, «habitualmente, já está avançado no momento em que determina as primeiras manifestações clínicas». As suas consequências mais importantes – o enfarte agudo do miocárdio, o acidente vascular cerebral isquémico e a morte – são, frequentemente, súbitas e inesperadas. A maior parte das doenças cardiovasculares resulta de um estilo de vida inapropriado e de factores de risco modificáveis. Actualmente, segundo o cardiologista, «estima-se que até 80% das doenças cardiovasculares são evitáveis». Por sua vez, na infecção VIH, a morbilidade e mortalidade cardiovasculares têm aumentado, muito embora ainda não tenham atingido as proporções observadas na população geral. «A infecção VIH e a terapêutica anti-retroviral também são factores de risco cardiovascular, elevando por si só o risco vascular do doente com infecção VIH», reforça, acrescentando ainda que «segundo estudos da espessura íntima-média carotídea, a aterosclerose não só é mais prematura como também progride mais rapidamente na infecção VIH que na população não infectada». Todos estes motes servem, fundamentalmente, de base para promover a interface entre a infecção VIH/SIDA e a Medicina Cardiovascular. Como tal, durante a primeira parte do workshop, o Dr. Carlos Aguiar faz questão de explicar que «os participantes são divididos em função da sua área de prática clínica: os médicos da área do VIH recebem formação sobre a prevenção e o tratamento da doença cardiovascular, enquanto os médicos da área cardiovascular recebem formação básica sobre a infecção VIH». A segunda parte é uma sessão interactiva com discussão de casos clínicos multidisciplinares, enquanto, na terceira parte, «os Profs. Giovanni Guaraldi e Esteban Martinez, infecciologistas com mérito científico internacionalmente reconhecido, abordarão a patogénese da doença cardiovascular na infecção VIH/SIDA e a avaliação do risco cardiovascular nestes doentes». Ainda sobre toda esta matéria, o secretário-geral da SPC refere que «embora os benefícios da terapêutica anti-retroviral ultrapassem substancialmente o aumento do risco cardiovascular, «o envelhecimento progressivo dos indivíduos com infecção VIH e a administração a longo prazo destes regimes terapêuticos contribuirão para o aumento da incidência de doença cardiovascular nesta população». Nestas circunstâncias, «alguns fármacos anti-retrovirais causam dismetabolias e diminuem a sensibilidade à insulina, induzindo síndrome metabólica», uma forma acelerada de aterosclerose que duplica o risco cardiovascular e aumenta até cinco vezes o risco de diabetes mellitus. A doença cardiovascular associada à infecção VIH pode assumir um largo espectro de manifestações, desde a doença coronária aterosclerótica acelerada à miocardiopatia. No seguimento do indivíduo com infecção VIH, «deve avaliar-se periodicamente o risco cardiovascular e intervir de modo a reduzi-lo, sem prejudicar o sucesso do controlo da infecção VIH», alerta o Dr. Carlos Aguiar.
Dr. Carlos Aguiar, secretário-geral da SPC |
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