| |  | Isabel Lestro Henriques*
O dia comemorativo do AVC (Acidente Vascular Cerebral) é uma oportunidade para divulgar a doença e actualizar os conhecimentos da opinião pública sobre o estado da ciência relativamente ao diagnóstico e tratamento da doença cerebrovascular.
As doenças cérebrovasculares, conhecidas como Acidente Vascular Cerebral, cuja abreviatura é “AVC”, são a primeira causa de morte em Portugal, havendo anualmente dezenas de milhar de novos doentes nos nossos hospitais. No entanto, nos últimos anos assistiu-se a uma revolução no modo de prevenção e tratamento destas doenças, tendo-se modificado o panorama da doença no nosso país e no Mundo. Observou-se assim nas últimas três décadas uma diminuição da mortalidade, o aparecimento de novas terapêuticas mais eficazes, uma melhoria do diagnóstico imagiológico, da qualidade dos cuidados e da recuperação funcional dos doentes com AVC.
A abordagem actual dos AVC contempla uma vertente de prevenção e outra de tratamento. Da prevenção dita primária (aquela que acontece antes de ter ocorrido o AVC) faz parte o controlo dos chamados factores de risco vasculares, como é o caso da hipertensão arterial, da diabetes, do tabagismo ou da dislipidemia (colesterol ou triglicerídeos elevados). A promoção de hábitos saudáveis de vida, incluindo o exercício físico diário ou o cumprimento das dietas, podem também contribuir para uma melhor prevenção da doença vascular em geral e da cerebrovascular em particular.
O AVC é uma emergência médica e os doentes com AVC devem de imediato ser transportados para um hospital com cuidados diferenciados para AVC, as chamadas “Unidades de AVC”, com acesso imediato a TC (tomografia computorizada) ou Ressonância crâneo-encefálica. A TC crâneo-encefálica permite de imediato distinguir os AVC isquémicos (i.e. os casos em que uma artéria cerebral se entupiu com um êmbolo ou trombo e não deixa passar mais sangue) e os hemorrágicos (a chamada hemorragia cerebral, i.e., uma artéria cerebral que se rompeu e sangrou). Esta primeira distinção é fundamental porque o tratamento é muito diferente. Depois, dependendo do tipo, extensão e causa provável de AVC, estão disponíveis diversos tratamentos, uns até às 6 horas após início das queixas, a chamada trombólise, outros a aplicar independentemente do número de horas decorrido desde as primeiras queixas.
Assim é muito importante para a escolha do melhor tratamento para o doente, saber com precisão quando começaram os seus sintomas, e telefonar de imediato para o número de emergência (112) para, através da chamada “Via Verde do AVC”, o doente ser rapidamente transferido para um hospital que tenha cuidados especiais organizados para doentes com AVC.
Muito importante é também que se conheçam os chamados “sinais de alarme” dos AVC: aparecimento súbito ou ao acordar de boca ao lado, falta de força num braço ou dificuldade em falar.
Estes são os sinais que têm vindo a ser divulgados nos meios de comunicação social na campanha publicitária “Seja mais rápido que um AVC”, que provavelmente já viu em cartazes, na televisão ou nas imagens no ecrã dos multibancos. Do reconhecimento destes sinais e da chamada telefónica imediata para o 112 depende o tratamento mais eficaz para os doentes. . De igual importância hoje em dia é o acesso às chamadas Unidades de AVC, locais de internamento destes doentes na fase aguda. Estas Unidades são um local de internamento onde os doentes com AVC se encontram monitorizados e são vigiados e tratados nos primeiros dias. Destas unidades fazem parte uma equipa de médicos de várias especialidades, enfermeiros e técnicos de saúde e acção social com especiais conhecimentos em AVC. Aí são também efectuados os exames necessários ao esclarecimento do possível mecanismo que esteve por detrás do AVC o que permite um tratamento mais adequado de cada caso, incluindo a prevenção de novos episódios.
Após a fase aguda do AVC, que deve ser de internamento obrigatório em unidade hospitalar, segue-se a chamada fase de reabilitação e reintegração social onde as equipas de assistência social, fisiatria, de cuidados integrados e medicina familiar têm um papel fundamental. Destes depende também a manutenção do benefício obtido na fase aguda do tratamento.
O cumprimento da medicação prescrita no internamento é também fundamental e a cooperação do doente e da família no cumprimento de dietas e idas aos tratamentos de fisiatria ou terapia da fala são contributos decisivos para a sua reabilitação em tempo útil.
Assim, existem hoje condições para um futuro melhor para os doentes com AVC. Do tratamento da hipertensão, da diabetes, da dislipidemia, do tabagismo e das doenças cardioembólicas depende a modificação do panorama desta doença em Portugal. A responsabilidade é de todos nós. Aos médicos e restante equipa de saúde cabe manter o interesse, o empenho e a investigação clínica que permita um melhor tratamento e prognóstico para estes doentes. À população cabe o cumprimento das medicações, dietas e a adopção de estilos de vida saudáveis que contribuem para prevenir a doença vascular.
* Assistente Graduada de Neurologia Centro Hospitalar de Lisboa Zona Central Instituto de Investigacion, Departamento de Neurociências Hospital Universitário de la Paz, Madrid |
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