Homenagem ao Prof. Doutor Manuel Ramos Lopes
 
IN MEMORIAM

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia entendeu prestar homenagem neste Forum a um dos seus mais distintos membros, o Prof. Doutor Manuel Miranda Ramos Lopes. Para o efeito, o seu Presidente, Sr. Prof. Doutor Manuel Antunes, pediu-me que aqui proferisse breves palavras recordando o homenageado.
É de boa regra ética que se faça uma declaração de interesses, sempre que for caso disso. Por tal, sublinho desde já que Ramos Lopes era meu familiar, muito próximo e muito querido. Sendo embora impossível que esta proximidade não influencie o meu testemunho, farei um esforço para que ela me não cerceie a objectividade de julgamento, naquela postura intelectual que ele próprio tanto prezava. Enfim, espero ser capaz de esboçar um retrato sem tintas carregadas, aliás de acordo com a suavidade que era um dos traços da sua personalidade.
Não quero terminar este brevíssimo intróito sem agradecer vivamente, em nome da Família, a homenagem que a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, no ano em que completa o seu sexagésimo aniversário, decidiu prestar a este seu antigo Presidente.
Foi a 9 de Novembro de 2008, que Deus chamou a Si, de forma súbita, o Prof. Doutor Manuel Miranda Ramos Lopes, que aqui evoco como exemplo e estímulo.
Nascido em 3 de Agosto de 1920, em Airó, no concelho de Barcelos, veio com treze anos para Coimbra e aqui radicou a sua vida de estudante e, depois, de profissional.
Aluno brilhante da Faculdade de Medicina desta cidade, licenciou-se em 1945, com a elevada classificação de 18 valores, o que suscitou os convites para assistente que lhe foram dirigidos por dois professores catedráticos, vindo a aceitar o do Prof. Doutor João Porto, elevada figura da medicina portuguesa e pioneiro da cardiologia no nosso País, o qual, naquela data, dirigia o Serviço Terapêutica Médica. Aí adquiriu a formação em medicina interna e aí nasceu o seu interesse pela cardiologia, o que é aliás bem perceptível na escolha da insuficiência cardíaca como tema da sua dissertação de doutoramento. As respectivas provas tiveram lugar em 1955, e concluíram-se com a classificação de 18 valores. Antes, desfrutara da oportunidade de visitar vários centros médicos em Espanha, tendo sido sobretudo marcado pelo contacto pessoal com Gregório Marañon e com Jiménez Días, as duas figuras maiores da medicina interna daquele país, e também com a escola cardiológica de Gilbert-Queraltó que nesse tempo iniciava, em Barcelona, os cateterismos do coração esquerdo para recolha de potenciais eléctricos intracavitários.
A orientação para a cardiologia, cujo impulso lhe veio do seu mestre João Porto, levou-o depois a frequentar em Paris o reputado Serviço do Prof. Jean Lenègre, no Hospital Boucicaut. Seguiu-se a prestação de novas provas públicas para professor extraordinário, em 1964, provas que ao tempo ocupavam cinco intensos dias, e depois para catedrático, em 1970, sempre com aprovação por unanimidade.
Mercê da sua formação de base na área da medicina interna, foi chamado pela sua Faculdade a reger as cadeiras de Doenças Infecciosas e de Terapêutica Médica, e a dirigir, nos Hospitais da Universidade de Coimbra, os correspondentes Serviços hospitalares. A partir de 1974, foi-lhe entregue a cadeira de Cardiologia e o respectivo Serviço hospitalar, do qual foi o primeiro director. Nesta missão, o seu pensamento dominante residiu no desenvolvimento científico e técnico dos seus colaboradores, motivando-os a alargar as suas competências com estágios noutros centros, tanto dentro como fora do País, do que resultou a diferenciação, no Serviço, das diversas valências que caracterizam a moderna cardiologia. Com o mesmo sentido, estimulou os seus discípulos na progressão das suas carreiras hospitalares e universitárias. Ao atingir a jubilação, saiu com a satisfação de deixar quadros hospitalares do mais alto nível e docentes em vários graus da carreira universitária, com destaque para dois professores catedráticos.
É de justiça dizer que Ramos Lopes foi responsável, juntamente com os seus Colegas, Carlos Ribeiro e Cerqueira Gomes, respectivamente de Lisboa e do Porto, pelo grande desenvolvimento que a cardiologia médica portuguesa conheceu, elevando-a a patamares de excelência que lhe granjearam reconhecimento nacional e internacional. Mas também a cirurgia cardíaca nacional lhe deve muito, pelo papel que desempenhou na vinda para Portugal, concretamente para Coimbra, do Prof. Doutor Manuel Antunes. Ficou assim assente, na sua Escola, uma cardiologia do mais alto nível, tanto na vertente médica, como na cirúrgica.
A sua grande craveira científica levou-a a cargos do maior relevo no meio académico e ao reconhecimento nacional e internacional, tanto no nosso Continente, onde a Sociedade Europeia de Cardiologia lhe atribuiu a Medalha de Mérito, como também no Novo Mundo, tendo sido recebido como “fellow” no American College of Cardiology. Em Portugal, era Sócio Emérito da Academia Portuguesa de Medicina e desempenhou vários cargos directivos nesta Sociedade de Cardiologia que hoje o recorda e de que foi Presidente. No seu curriculum, avultam ainda a presidência do Conselho Científico do Instituto Português de Cardiologia Preventiva, a presidência do Conselho Científico da Fundação Portuguesa de Cardiologia e também da Fundação Merck, Sharp & Dome.
Nos inúmeros títulos de que foi autor, na sua maioria trabalhos científicos da área médica, incluem-se temas muito variados, desde a recolha etnográfica até aos de índole histórica, passando pela poesia que, da forma mais espontânea, lhe brotava nas mais simples circunstâncias do dia-a-dia ou nos momentos emocionalmente mais significativos. Com efeito, era famosa a sua veia poética que o levava a pontuar em verso os passos, bons ou difíceis, que ia vivendo. Das suas preciosas raízes minhotas, que tão amorosamente guardava, brotavam as quadras repentistas, cheias de graça, mas sempre de uma ironia repassada de bondade. Quadras, sonetos e outras formas poéticas foram-se acumulando e deram corpo a vários livros seus.
Mas, no retrato que estou esboçando, falta ainda o principal: mencionar a massa de que era feita a sua rica personalidade.
Ramos Lopes tinha uma elevada estatura moral. Por isso mesmo, os seus Colegas lhe atribuíram a regência do Curso de Deontologia na Universidade de Coimbra, durante 12 anos, e a Ordem dos Médicos lhe entregou a responsabilidade de integrar e, mais tarde, presidir ao Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médicas.
Nunca procurou honrarias. Pelo contrário, ao longo da vida, recusou muitas posições de grande brilho, dentro e fora da Universidade. Este traço do seu carácter revelou-se já sobejamente em estudante, quando, sócio do então famoso CADC, recusou o cargo de presidente para que fora eleito.
Todos os que o conheceram viram nele um homem estruturalmente bom. A sua bondade não era simplesmente tradutora de uma índole amigável, era uma permanente atitude de acolhimento e de serviço, de auxílio ao outro, na melhor linha do preceito evangélico de amar o próximo que o levou a fazer o bem mesmo àqueles que, por qualquer motivo, o tivessem desgostado. A sua casa foi porto de abrigo para tantos que recorreram à generosidade do seu coração, sempre secundado pelo de sua Mulher.
A sua permanente jovialidade, a bonomia, o calor de uma personalidade generosa e cativante conquistaram-lhe amigos em todos os meios onde a sua longa vida o levou e a admiração e carinho dos milhares de doentes que a si recorreram, ao longo de várias décadas. Não foram, por isso, surpresa as manifestações de pena e carinho que tantos lhe fizeram chegar quando souberam, cerca de meio ano antes da inesperada morte, que encerrava o seu consultório, dando por terminada uma actividade clínica de mais de sessenta anos.
Acima de tudo, Ramos Lopes era um homem de valores, um verdadeiro humanista cristão. Médico, cientista, académico, homem bom e amigável, a sua vida encontra a explicação mais profunda na sua fé esclarecida e nos valores e critérios por ela inspirados. Católico convicto e empenhado, participou activamente em vários Movimentos da Igreja à qual estava profundamente ligado.
Quem o conhecia sabe que, muitas vezes, o seu pensamento divagava, interrompendo uma frase que deixava o interlocutor em suspenso, enquanto ele partia para outra reflexão só por si conhecida. Foi assim, também, a sua morte. Uma vida aparentemente interrompida, mas que continua agora num outro plano que pressentimos, mas em cuja intimidade não conseguimos entrar. É afinal dessa maneira tanto sua, de simples suspensão do contacto connosco, que ele continua entre nós, seguramente feliz.
Dormiu a sua última noite na sua aldeia natal, naquela mesma cama e na mesma casa onde viera ao mundo, mas faleceu já em Coimbra, quando caminhava na rua. Em poucas horas, estes dois momentos foram uma metáfora da sua vida. Uma vida fiel aos valores que recebeu na casa paterna e que se realizou para sempre na cidade que escolhera. Que Deus o tenha na Sua glória!


Prof. Henrique Vilaça Ramos
 
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